me esqueço

por alguns segundos, esqueço pra onde tô indo.

tenho andado esquecido.

esqueci nomes, senhas.

não consigo acessos.

tô angustiado.

tô quebrado

tô falido.

moral

social

economicamente

uma noite de páscoa

galera, desculpem interromper a resenha, mas preciso compartilhar isso com alguém…

eu estava no sofá tomando uma cerva e vendo tv. ana estava do meu lado jogando candy crush. de repente, avisto uma barata. adoto o procedimento padrão: pego uma sandália e parto pra cima. acertei a barata, ouvi aquele estalo e ela caiu de barriga pra cima. lá mesmo ficou.

acontece que, quando parti pra cima, ela estava posicionada entre o sofá e o ventilador. quando desci pra acertá-la, meu tórax se encontrou com a quinta do sofá. doeu pra caralho. depois da pancada, voltei atordoado e continuei a cerva pra amenizar a dor.

ana, a essa altura, já tinha se picado pro quarto. de lá de dentro, ela grita: “matou?”. eu disse: “matei”. ela: “joga fora então”. terminei a cerva pra finalizar o serviço. quando fui recolhê-la, a bicha tava vivinha, andando na entoca pelo pé do ventilador. eu disse: “caralho”.

fui até a sandália e parti pra um novo ataque. quando sandalhei, a barata se meteu por debaixo do ventilador. eu levantei cuidadosamente o ventilador e a bicha não tava mais lá. me agachei, olhei por debaixo do raque e do sofá. nada. pensei: “caralhooo. acabei de apanhar e ser enganado por uma barata”.

meu tórax doía e já estava vermelho. peguei outra cerva. acho que a dor no tórax misturada com o álcool me deixava bêbado mais rápido. sentei no sofá e fiquei de guarda: cerva numa mão e sandália na outra. ana grita: “já recolheu?”. eu: “já vai”. ela: “porraaa”.

lá pelas tantas, sem sinal da barata, desisti. pensei: vou esperá-la pra apertar uma de suas seis patinhas e dizer ‘que adversária'”. peguei a saideira e quando já tava mais pra lá de bagdá, percebo a barata saindo de fininho pela porta da rua.

meu lado diabólico falou mais rápido e parti pra cima dela com a sandália pelas costas. esmaguei covardemente a minha nobre adversária. agora, me sinto um judas em plena páscoa. e resolvi tomar mais uma pra tentar apagar da memória a minha covardia.

ave barata. agora, a contemplo.

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desculpem compartilhar isso, mas tô bêbo e sozinho.

eu me despeço da vida com um canto pra morte

morte, minha eterna companheira

que me resgata dessa tragédia que chamo de vida

agradeço por você fazer as vozes que não querem calar

agradeço por ser o amor que não pude me dar

e assim dou a deus a vida

e ao diabo a morte

e eu me despeço daqui

cantando, mas não chorando

chorei na vida

chorei por dentro, como uma hemorragia interna

mas agora, não choro mais

graças a morte, não sinto mais

se não sinto, não choro

se não sinto, não sofro

se não sinto, não lembro

se não sinto, não me importo

se estou vivo, adeus

se estou morto, alô

eu me despeço da vida

com um canto pra morte

Estado de exceção

Vamos entender uma coisa. Michel Temer não está onde está porque é Michel Temer. Jamais. Aproveitador barato, canalha, covarde? Sim. Mas habilidoso? Nunca. A força das circunstâncias o colocaram lá como a “Solução Temer”. Se fosse Geddel o vice, o sucessor, em caso de afastamento “legítimo”, Geddel seria a “solução”.

Temer é medíocre em tudo que faz e fala. Construiu sua vida política em uma escola que forma usurpadores e maus caráter. Usurpadores e maus caráter que praticam a velha política, em benefício próprio de seus grupelhos pançudos, sebosos e vaidosos. A habilidade política está com seus pares, com seus compadres e comadres, dentro de seu ninho, mas nunca em um todo, nunca para o todo.

Não têm a habilidade política pra lidar com bancadas diversas, com interesses diversos, com a diversidade em si. Não tem preparo, nem competência, muito menos vontade, pra estar a frente de um país do tamanho e da complexidade do Brasil. Estão sempre como ratos, atrás do local mais apropriado pra sua serventia naquele momento. Não é a toa que chegaram ao poder por três vezes sem a necessidade de legitimação pública.

Chegar ao poder, aliás, não significa ter um poder legitimado. O Brasil hoje não tem governo. E não apenas no sentido simbólico, metafórico, mas prático. Não tem governo. Michel Temer não governa. É apenas um político medíocre que, pra o lado dos golpistas, estava no lugar certo e na hora certa. É um incompetente, comandado por forças maiores, que lhe retribuem com a recompensa adequada.

Pra quem enxerga a farsa que tomou conta do Brasil desde 2014, Michel Temer deve ser um invisível. O cargo de presidente da república não está ocupado por ninguém, enquanto a farsa se mantiver, enquanto não tivermos um governo legitimado pelo povo.

A aliança neoliberal com o PSDB (esse sim, formado por políticos habilidosos, mas pra impor suas pautas retrogradas, elitistas e também em benefícios próprios) comprova, por fim, o que é o PMDB.Um enorme partido, procurado pela sua quantidade, e não pela sua qualidade, apesar de um Requião da vida amenizar tanta negatividade envolta ao partido. Partido esse, é bom lembrar, desdobrado do antigo MDB, lá nos idos do Golpe de 64 (partido de oposição ao regime, diga-se de passagem).

O estado de exceção, conceitualmente falando, é o estado que se opõe ao estado de direito, decretado por autoridades em casos de emergência nacional (e aí cabe discutir o que é “emergência nacional”). Mas, ao revisitar a história do Brasil, arrisco ressiginificar esse conceito. Arrisco dizer que estados de exceção foram os breves momentos em que vislumbramos um país melhor. Para a minha geração, nascida nos anos 80, esse período se refere aos 13 anos da era Lula/Dilma.

Nesse contexto, não há como negar que Lula foi o maior presidente que já passou por esse país, até porque, os que anteriormente chegaram próximos à sua política e às suas políticas foram depostos, mortos ou cometeram suicídio. Foi, acredito, o período de maior prosperidade, ou melhor dizendo, de prosperidade mais longeva que esse país já viu.

Mas não pergunte isso pra mim ou pra qualquer outro homem branco de classe média. Não pergunte a empresários ou a banqueiros. Pergunte às populações das periferias, a quem mal tinha o que comer e hoje tem garantido, ao menos, as três refeições diárias, aos velhos e jovens sertanejos, aos primeiros de muitas famílias que concluíram o ensino superior, aos negros e negras desse país, que conquistaram um mínimo de reparação histórica, depois de 500 anos de atraso.

Sim. Esse foi um estado de exceção no Brasil.

atmosfera

eu acho que fiquei muito distante. tive meus motivos. e você teve os seus pra agir daquela forma. faltou entendimento entre nós dois, entre nós todos. faltou um pouco mais de diálogo e abertura. mas não faltou afeto. isso eu tenho certeza.

agora, vejo a sua condição e sinto que preciso ta por perto. sei que não é uma despedida. nunca é. mas é um momento que vai passar. e aí é preciso não ter dúvidas. é preciso não deixar dúvidas.

sei que você se preocupa com o que vai deixar, quem vai deixar, como vai deixar. mas você não tem que se preocupar. todos temos nossas escolhas. comigo e com eles não foi diferente.

crescemos, mas não nos tornamos maduros. amadurecer é um processo muito lento. mas isso não significa que somos indefesos.

você precisa entender isso. vamos ficar todos bem. e não se sinta só. nós erramos muito. fomos um pouco duros. talvez, tão duros quanto você às vezes foi com a gente.

não soubemos resolver as diferenças. mas vamos nos unir nas semelhanças, nas familiaridades.

esse é um processo natural, é inevitável pra todos nós. você chegou até aqui e pode ir até muito mais. só que agora de um jeito diferente. agora com olhos e pernas extras, agora com mais atenção, agora com mais compreensão.

sem culpa, sem responsabilidades, apenas com afeto, vamos pensar daqui pra frente, independente de qualquer coisa. as dores nunca são só físicas. por isso, temos sim a nossa parcela impregnada dessa dor.

não é tempo de discordar. é tempo de dialogar. é hora de reconhecer o que você fez por todos. e é hora de retribuir.

não. não se sinta humilhada ou inválida. é como eu disse: é um processo natural. não tenha medo do que vem daqui pra frente. apenas viva. viva e lembre, sempre lembre daqueles momentos maravilhosos.

lembra daquela luz de domingo de manhã? quando eu comia batata frita e ele assistia corridas de fórmula 1. eu ainda consigo sentir a atmosfera daqueles domingos.

e os sábados? uma luz mais serena pela tarde. lembro dos passeios e dos sorvetes que lambuzavam a minha cara. o passeio com o cachorro, o vendo batendo nas folhas das árvores.

sabe o natal? pois é. o natal, com cheiro de orvalho. lembro daqueles fins de tardes. eles são inesquecíveis. quando criança, achava que era por conta dos brinquedos. mas hoje me dou conta que não era isso. era a atmosfera.

os almoços sempre cheios de tanta gente… foram se esvaziando. mas ali estão aquelas marcas. e todos que passaram? e todos que se foram? quantas felicidades? e as tristezas? sim. as tristezas também fazem parte, afinal, essa é a vida.

foram várias fases, não é mesmo? e quando eu voltei? depois de velho? casado? foi diferente. a luz do sol era mais forte. mas incrível como aquela atmosfera de 30 anos atrás ainda paira no ar.

às vezes. sozinho, me pegava lembrando daqueles tempos. e o sol sempre batendo nos mesmos lugares. tá mais forte, mas ainda acerta os mesmos lugares.

impossível não me recordar do cheiro, do som, do silêncio. sempre que sinto cheiro de sol batendo em móveis de madeiras de lei, eu me recordo daquela atmosfera. posso ta no meio do caos urbano, mas se for pego por essa memória, paro no mesmo momento apenas pra lembrar e saber que sempre poderei sorrir quando as lembranças estiverem presentes.

aquele espaço é o espaço onde me encontrei, me desencontrei e me encontrei de novo. ele sempre será. e você também sempre será.

 

a morte e a certeza da vida

o golpe. o golpe humano. a depressão. eu acho que tenho depressão. sinto um incomodo no peito. uma angústia lá dentro. algo me revira o estômago.

me sinto tão só. tão, tão só. acho que vou embora. assim, mando a dor embora também. talvez aqui não seja bom o bastante pra mim. ou eu não sou bom o bastante praqui.

quero ir embora. quero parar de sentir dor. quero parar de me angustiar.

eu tenho vontade de chorar. mas as lágrimas não saem.

eu acho que tenho pena de mim mesmo. e, ao mesmo tempo, sinto admiração por mim. sou contraditório, porque sou humano. sou sozinho.

não. não é questão de fracasso. realmente, sou sozinho. sinto pena e admiração porque sou o único que sente algo por mim.

se há algo de bom nisso tudo, é que enquanto ainda sinto dor, sei que ainda estou vivo. e enquanto estou vivo, sei que ainda posso combater essa dor.

mas se eu morrer e a dor for embora, essa também é uma solução. a morte. cedo ou tarde é o único caminho certo pra todos nós.

enquanto houver dor, preciso criar. preciso criar. criar a dor. ou a dor me criar. usar a minha matéria-prima e pintar, colorir, dançar.

fora

ontem. ontem. ontem.

não tenho como não me expressar com sobriedade sobre o dia de ontem. eu, que sou de uma geração pós-ditadura, que tem flashes de memória sobre a cassação de collor, talvez não esperasse, pelo menos há dois anos atrás, o desfecho de ontem.

mas, de uns meses pra cá, o fim já não era mais surpresa. nada adiantava mais. o rito prosseguiu por pura formalidade. argumentos incisivos da defesa e a fragilidade de um processo ilegítimo, sob o escudo da constituição, desenharam um embate dos últimos dias e meses.

acabou. por agora. só por agora. acabou um ciclo de governo que, apesar de seus inúmeros problemas, conseguiu priorizar políticas públicas a quem mais precisa. o grande erro foi querer agradar gregos e troianos. impossível. mas a luta não cessou.

esse governo golpista não pode ter um segundo de sossego. não pode governar, não pode representar, porque não é legítimo. ele representa apenas aqueles que querem encher seus próprios rabos, sua própria ignorância.

que os velhos ciclos se contaminem com novos ciclos, num novo contexto, numa parcela majoritária da sociedade que não vai baixar a cabeça pra usurpadores, elitistas e corruptos comprovados.

que as ruas sejam o local de trabalho daqueles que não reconhecem esses canalhas que tomaram o poder de assalto.

que as urnas deem sua resposta na escolha de um governo legítimo, ainda que contraditório à nossa visão.

que a frágil e novata democracia brasileira continue resistindo sob a pesada mão da tirania maquiada sob pretextos constitucionais.

que os movimentos sociais estejam ainda mais organizados pra rebater os reais demagogos e falsos moralistas.

que assim seja.

 

Conversas

Filhinho

– Mamãe, cadê o papai?

Mamãe

– Papai tá trabalhando, filhinho.

Filhinho

– Ele tá trabalhando demais, mamãe. Não vejo mais papai em casa.

Mamãe

– É porque agora papai é chefe.

Filhinho

– Chefe? Ele agora pode mandar?

Mamãe

– Sim, filhinho. Ele pode mandar e vai ter um monte de gente pra obedecer.

Filhinho

– Que legal, mamãe.

Mamãe

– Sim, é muito legal, filhinho.

Filhinho

– Então, é por isso que ele não fica muito em casa? Por que tem muito trabalho?

Mamãe

– Isso, filhinho. Os chefes têm que trabalhar mais. Mas não se preocupe, porque ele sempre vai ter um tempinho pra você.

Filhinho

– É… E eu quero aprender tudo com o papai. Quero saber tudo. Quando eu crescer, quero ser chefe igual a ele. Será que vou demorar pra conseguir ser chefe, mamãe? Não queria ser chefe velho, igual o papai. Queria que fosse mais rápido.

Mamãe

– Não se preocupe, filhinho. Enquanto seu pai for chefe, você terá tudo o que você quiser. E poderá se tornar chefe logo logo.

Filhinho

– Mamãe, como é que a gente vira chefe.

Mamãe

– Filhinho, o mais importante é estar com as pessoas certas no lugar certo e na hora certa.

Filhinho

– Foi assim que papai fez?

Mamãe

– Sim, filhinho. Foi assim que ele fez…

Filhinho

– Papai é mesmo muito inteligente. Tomara que eu fique inteligente igual a ele.

a derradeira

hoje, morreu vander lee, um nome que nunca saiu da minha cabeça, mesmo sem nunca ter ouvido uma música dele. apenas sabia quem era. detalhes do passado.

em junho, morreu um jovem rapaz. não o conhecia. mas trabalhava no mesmo lugar que eu. só que em outra área. nunca o vi. nunca o conheci. nunca falei.

em julho, morreu um jovem senhor. conhecia, mas não falava. era próximo de um amigo de infância. sei quem é. mas não lembro nem o nome. lembro dele olhando pra mim.

morreram daqui pra li, de uma hora pra outra. os três. como isso aqui é um sopro. um suspiro.

se eu chegar até a metade da vida, preciso ao menos ter feito algo… algo que dê sentido ao fato de eu respirar e oxigenar meu cérebro, e manter meu coração batendo e abrir os olhos e sair da cama. algo que dê sentido ao que sinto e que não fique apenas na abstração do sentimento.

eu preciso tocar e sentir a pele queimando e o peito rasgando e os pulmões gritando. eu preciso falar.